Eu sou negro, sim senhor!

blackUm dia desses, uma aluna do estágio me perguntou se eu já havia sofrido racismo. A pergunta foi um pouco inusitada e acabou me pegando de surpresa, porque estávamos discutindo uma outra temática em sala de aula, e por isso demorei alguns segundos para processar e respondê-la. E é ainda mais estranho dizer que esta tinha sido a primeira vez, em quase 30 anos de vida, que uma pessoa me fez uma pergunta assim, sem rodeios, sendo direta e reta. E por mais que isso tenha me trazido a mente o pensamento “nossa, que incrível esta nova geração, muito mais aberta e corajosa aos debates”, também me veio à cabeça “eu ainda estou pouco preparado para encarar a realidade de que eu sofro racismo.”

Ao contrário do que algumas pessoas possam pensar, esta minha reflexão não foi fruto de uma fraqueza de ideologia. Acredito que tenha sido muito mais o resultado de uma vida de negações e privações às minhas próprias origens, promovidas por inúmeras questões sociais que nos afastam das nossas raízes negras. Deixem-me explicar melhor. Durante muito tempo, por ter convivido diariamente e unicamente com pessoas brancas (e aqui já quero explicitar que do ponto de vista convívio, eu tive as melhores companhias possíveis, mas que não suficientes para me fortalecerem como negro) e não ter tido referências negras necessárias, foi bastante complicado desenvolver em mim uma identidade racial. Ou seja, uma identidade que se estabelecesse através das relações com a minha ancestralidade e cultura. E quando eu falo de referências, não estou apenas citando aquelas que poderiam estar ao meu lado, em um convívio diário. Eu falo sobre e principalmente de representatividade. Aquela que deveria se estabelecer em todos os campos e áreas. Por exemplo, há alguns anos atrás, os papéis de negros nas telenovelas se limitavam unicamente à cozinha das casas de seus patrões ou ainda a lugares marginalizados, como favelas, vilas e as ruas dos centros urbanos. Não que hoje tenha mudado muito, mas já vemos que, mesmo sendo uma pequena e muito tímida mudança, ela já está acontecendo. Talvez aos trancos e barrancos? Sim, mas acontecendo. Espero ainda que estas mudanças ocorram também na indústria de brinquedos, com mais bonecas e bonecos negros sendo produzidos, em programas de televisão, com apresentadores negros, nos grupos musicais etc etc e muito mais etc por aí, porque quanto mais enegrecemos o tamanho da representatividade, menos teremos o apagamento da nossa própria identidade.

Mais recentemente este assunto sobre identidade racial tem me chamado a atenção por alguns motivos bem claros. Primeiro porque eu não estou aqui a passeio e acho que já está mais do que na hora de eu me identificar completamente com as minhas raízes negras. Segundo que conforme eu venho amadurecendo e crescendo como ser humano, eu tenho percebido que ao me empoderar eu também passo o exemplo a outros que estejam na mesma situação na qual eu me encontrava. E terceiro, e não menos importante, porque percebi através de meus sobrinhos e afilhados que precisarei ser forte para estar ao lado deles quando, infelizmente, eles passarem por situações de racismo na escola. Ainda, ridiculamente, inevitáveis.

Apesar de esta nova geração de negros e negras já estar inserida em um novo cenário, muita coisa ainda continua sendo perpetuada por aí como antigamente e pra piorar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Desde a beleza de caráter eurocêntrico, com seus cabelos lisos e loiros, até os estereótipos atribuídos “gratuitamente” a nós negros, como “negros são preguiçosos”, ” negros têm capacidade intelectual inferior aos outros” e muitos outros mais que apenas de pensar já me enfurecem. Bom, mas acho que a partir daqui vocês conseguem agora compreender o que eu quero evitar para os meus pequenos, né?! Que eles não tenham que passar por estas situações constrangedoras e que diminuem o ser negro. Que as gerações após eles também não tenham que passar por isso. E que se neste momento tenhamos que colocar nossas caras a tapa para lutarmos por uma sociedade que não nos oprima e não nos cale, como faziam com nossos ancestrais escravos, que façamos isso de cabeça erguida, de black armados e punhos cerrados.